Panorama das migrações e refúgio
Nova comissão da Lancet sobre deslocamento e conflito, migrações na Assembleia Mundial da Saúde e surto do Ébola
Palavras-chave:
Migração, Refúgio, Saúde, Mobilidade HumanaResumo
A Comissão Lancet sobre Saúde, Conflito e Deslocamento Forçado, coordenada pelo Centro Johns Hopkins para Saúde Humanitária, apresentou uma análise crítica do atual sistema humanitário internacional, argumentando que este atravessa uma profunda crise de legitimidade, financiamento e governança. A Comissão aponta que o sistema humanitário atual não consegue mais responder adequadamente à escala, à duração e à complexidade política das crises contemporâneas. Embora tenha sido criado para proteger populações em situação de vulnerabilidade social, o sistema passou a operar sob forte influência de interesses geopolíticos, prioridades de política externa e agendas de segurança nacional dos países doadores. Como consequência, o financiamento humanitário tornou-se cada vez mais condicionado por interesses políticos, resultando em respostas seletivas e insuficientes. O texto aponta que, diante da escassez de recursos, consolidou-se uma lógica de priorização extrema, na qual apenas uma parcela das populações recebe assistência. Esse processo representa uma forma de “racionamento da sobrevivência”, que transforma a exclusão de milhões de pessoas em uma prática institucionalizada e legitimada pelos próprios mecanismos de financiamento internacional.
Outro aspecto central da análise refere-se ao enfraquecimento do direito internacional humanitário. A Comissão denuncia o aumento de ataques contra instalações e profissionais de saúde, a obstrução deliberada da assistência humanitária e as frequentes violações dos direitos de pessoas refugiadas, migrantes e civis em zonas de conflito. Apesar da existência de instrumentos jurídicos internacionais, a aplicação das normas permanece limitada e raramente produz consequências efetivas para os responsáveis. Nesse sentido, é argumentado que o direito internacional tem sido tratado como uma referência normativa abstrata, quando deveria funcionar como um instrumento operacional capaz de orientar decisões e produzir mecanismos concretos de responsabilização. A ausência de consequências para violações recorrentes contribui para a normalização da impunidade e para o enfraquecimento da proteção humanitária em nível global.
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